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Sociedade

E que tal sermos Igreja?

A reportagem que passou ontem na RTP1, logo após o telejornal da noite, peca gravemente sob diversos pontos de vista.

Em primeiro lugar, pela fraquíssima capacidade jornalística portuguesa em compreender e tratar assuntos que fujam aos domínios da tragédia mediática corriqueira e sem interesse público. No que respeita à religião, este aspecto apresenta-se com especial gravidade, sendo visível a total ausência de conhecimento, por mínimo que seja, sobre a instituição Igreja e o que com ela se relacione, ou, quando o há, a forma ideologicamente inquinada com que transparece.

Segundo, pelas afirmações das partes entrevistadas durante a peça que, quer de um lado quer de outro, são quase sempre declarações desprovidas da radicalidade que a temática deveria requerer, deixando-se levar pelo bom-senso vigente na regulação de qualquer formulação de pensamento. No fundo, uma tentativa deliberada de mostrar mais consenso que divisão, remetendo-a para um passado supostamente negro que não se quererá repetir, ou não fossem as Luzes e as suas premissas o ponto de encontro concordante entre a Igreja do Vaticano II e a Maçonaria.

E, terceiro, pelo tratamento rápido, superficial e simplista que as duas realidades anteriores implicam. Ou seja, nada a fazer se temos uma classe redactorial fraca e comprada, tentando dissecar velhas rivalidades de quem já não as tem.

Aliás, toda a reportagem tende para um ponto de convergência: a Igreja, renovada pela revolução dos anos 60, compreensiva e atenta aos sinais da modernidade, rendendo-se ao encanto confortável de com ela cooperar e abrido-se ao diálogo para encontrar “respostas” fora da Mensagem, terá ainda muito que caminhar a fim de acompanhar a clarividência laicista que os “livres pensadores” descobriram, faz já dois séculos. O grão-mestre agradece e reconhece o esforço, a sociedade fica livre de uma Igreja coerente e passamos todos a viver no contraditório constante da guerra civil da numerologia relativista, liberal, ligeiramente socialista e sem justa medida. Nesse sentido, como não notar a resposta dada por D. Carlos Azevedo à questão de poder ou não um católico ser maçon? Os documentos dizem que não, e a expressão episcopal denota um “ainda”!

Curiosa é também a distinção que o maçon de serviço fez entre a Igreja pré e pós-conciliar. A ultima agrada-lhe, claro está, porque concordante com a trilogia sanguinária “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” que, desde o rolar de cabeças, desvirtua a Boa vivência do que enuncia: da Liberdade, fez libertinagem; da Igualdade, igualitarismo; da Fraternidade, lobby. E a Igreja, o que diz? Depreendeu o jornalista que quer aproximação, quiçá reconciliação, e confirmou a expectativa nas palavras do lado da Cruz. Mais, fez comparação absurda entre a antropologia cristã e a crendice maçónica no GADU (vai na volta, por dica de D. Carlos, como se fossem uma só verdade embora vivida de maneira distinta…) e, pelo meio, não se esqueceu do contracto feito com os irmãos/primos ao afirmar, com toda a certeza historicista, que a maçonaria nada teria ou terá com a carbonária. Abre-se espaço, ou talvez não, para criar a teoria igualmente certeira de que o Santo Ofício nada seria à Igreja… Porque a verdade é que se aproxima o centenário da república, vivem-se os cem anos do regicídio e há que lavar as manchas de sangue que lhes ficaram nos trapos que põem à cintura.

De resto, foi eficaz a técnica de entrevistar o bispo e só depois o pedreiro para permitir a réplica do segundo e não a do primeiro, por mais que este estivesse predisposto a alinhar no apertar de mãos e no acatar dos conselhos superiores de quem lutou pela democracia e, espantemo-nos, pelo serviço nacional de saúde. Talvez tenhamos nós também que fazer dos nossos templos espaços privilegiados para discutir taxas moderadoras e direitos de assistência médica. Talvez tenhamos nós que ser tolerantes, mesmo com o erro. Talvez tenhamos nós que protestantizar mais a Liturgia.

Pois é, meus amigos. Se é de aulas que se queixam, ontem tivemos uma… e bem esclarecedora! O modernismo é aquilo, quer o do jornalista, quer o do maçon, quer ainda - e especialmente este - o de D. Carlos Azevedo. Não tendo gostado, perguntem-se, questionem-se, pensem, rezem e coloquem a possibilidade “abominável” (dizem eles) de restaurarmos a nossa amada Igreja pela Tradição, a Sã Doutrina e a consequente boa prática litúrgica, comunitária e política… de restaurarmos a Fé. Enfim, de separarmos as águas entre os mata-padres, anti-clericalistas e inimigos de Deus, e nós, cristãos sem culpa das loucuras totalitárias de Rousseau…

http://gazetadarestauracao.blogspot.com/2008/04/e-que-tal-sermos-igreja.html

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