// consultar

História

Fundamentação do Individualismo Pós-Moderno

Fundamentação do Individualismo Pós-Moderno

O presente trabalho, esquecendo a Europa pré-cristã e focando essencialmente a contemporaneidade, tem a intenção de revelar, de uma forma superficial, logo não exaustiva, mas sistemática, alguns dos principais pensadores e respectivas correntes político-filosóficas que têm na sua base o individualismo. Banido durante a Idade da Luz ou da Fé, o individualismo, fórmula dogmatizada para almejar a felicidade no egoísmo, encontra terreno fértil com o rebentar do Renascimento e da sua força cultural, o Humanismo. Esta corrente de pensamento, marcada pelo antropocentrismo, caracteriza-se por um ferrenho individualismo, a máxima importância é dada ao homem e os valores humanos aparecem como centros da vida política e social. A visão antropocêntrica e naturalista do homem e do Universo sobrepuseram-se definitivamente ao teocentrismo, pois, havia a necessidade de libertar o homem da moral divina, uma vez que, as leis feudais prejudicavam o enriquecimento da burguesia. Considerava-se que as intervenções do Estado dificultavam as actividades comerciais lesando o desenvolvimento do mercantilismo. O humanismo renascentista defendia obstinadamente a tese de que o homem é naturalmente bom. Admitindo que é bom, este homem endeusado sabe sempre o que melhor fazer em cada momento, dispensa qualquer regra exterior, bane as regras sociais pois só limitam a sua acção, nega os conhecimentos dos seus antepassados porque impõem limites à criatividade. Mas, se a tese da bondade natural do homem é verdadeira, porque é que o mal sempre acompanhou o ser humano!?

O individualismo surge em radical oposição ao universalismo, a todo o colectivismo, ao idealismo e ao cristianismo, em suma, a tudo o que promova a união ou sustente a primazia do todo. O individualismo pode ser encarado como uma filosofia que subordina o interesse geral à conveniência particular, atribuindo uma importância exagerada ao indivíduo. Manifesta-se, esta forma independente de vida, em teorias e atitudes espalhadas por toda a parte. Fortalecido nas teorias de Kant, o individualismo foi adoptado mais tarde, de uma forma extremista e narcisista, por toda a esquerda hegliana e suas diversas ramificações. A preponderância perante os outros indivíduos conduz ao egocentrismo mas a modernidade engendrou, apoiada no subjectivismo e no relativismo, forma de o alicerçar.

O erguer do indivíduo como valor fundamental não impediu que os seus membros se associassem em grupos muito próprios e especializados. Cada um destes grupos, comungando de semelhanças de vida, interesses sectários, ideologia, hábitos e posição social, defende como melhor ou maior aproximação à verdade, a sua forma de encarar a vida, o que confere enorme relativismo à sociedade. Assim, o individualismo é também um fenómeno de grupos de interesses manifestado em associações, cujos elementos do grupo são movidos por um proveito comum, como acontece no socialismo, no comunismo e no anarquismo. Também o neoliberalismo dos nossos dias resulta de organizações associativistas, pois clubes de interesses económicos defendem uma economia de mercado com menor intervenção do Estado visando o catapultar do lucro individual. O individualista considera e usa o Estado como um meio para atingir os fins particulares, entende que cada um tem os seus próprios direitos e o Estado não tem direito algum.

Na viragem do século XVII para o século XVIII, John Locke expoente do liberalismo político, vincadamente individualista, juntamente com os empiristas britânicos, para os quais a história é uma colecção de factos mortos, sobressaindo David Hume à cabeça, serviu de ponto de partida para o liberalismo futuro. O empirismo ao tentar destruir a metafísica enfraqueceu todo o misticismo e consequentemente toda a moral natural transmitida por Deus ao homem. A ideologia liberal encontrou no racionalismo e no empirismo as suas bases filosóficas. Ao homem vertical opõe-se agora o homem liberal cuja razão individual passou a considerar-se como fonte de toda a verdade e moralidade. Na economia o individualismo apoia-se geralmente na célebre frase: “laissez faire, laissez passer”. A livre competição provocará assim o triunfo dos mais aptos, dos mais capazes, ou caso a justiça não funcione, o que não é difícil num sistema relativizado, dos mais vigaristas premiando o parasitismo e o oportunismo.

Jean Jacques Rousseau, utopista pioneiro da Revolução Francesa, ao defender a bondade natural dos homens, argumentando no seu Contrato Social que “o homem nasce livre, mas por toda a parte se encontra agrilhoado” e que “nascemos bons, a sociedade é que nos corrompe”, viria a influenciar o nascimento do individualismo mais extremista, o anarquismo. Diz ainda o filósofo das “luzes” que “O homem verdadeiramente livre apenas quer o que pode e faz o que lhe agrada”, como se a vida não exigisse esforço, como se as nossas vontades nunca se equivocassem, como se os desejos do corpo falassem mais alto do que a razão do pensamento que ele diz defender. O prussiano Immanuel Kant, no século XVIII, dá a argumentação necessária para a disseminação da tese da boa vontade que faz o homem autónomo, inevitavelmente envolto no egocentrismo. Tese esta que se pretendia universal. Kant ao estabelecer a fundamentação da ética formal, que não depende de algo que se considera bem supremo para o homem, estabelece que o homem deve determinar-se a si próprio no agir e a ser autónomo. Esta ética formal é vazia de conteúdo, não estabelece nenhum bem ou fim que deva ser seguido, não nos dá instruções ou referências para o agir. Ao dizer “O céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”, Kant abre a porta a toda e qualquer subjectividade, a todo e qualquer individualismo, pois cada ser particular determinará as regras mais convenientes, a cada instante, consoante os ditames dos seus próprios interesses.

O liberalismo triunfante na Revolução Francesa de 1789, propugna a primazia da liberdade e dos direitos individuais e, impõe-se como valor determinante da concepção liberal. O Estado liberal deve intervir o mínimo possível na vida do cidadão particular, abrindo caminho para o seu ideal de ordem económica, o qual se caracteriza pelas actividades comerciais completamente livres de regras. Pretende-se a não interferência nas actividades económicas permitindo o jogo natural da lei da oferta e da procura. O Iluminismo, movimento de suporte à revolução, incrédulo em relação às verdades herdadas, insurge-se contra toda a autoridade externa, ou seja contra a autoridade não reconhecida pela conveniência do próprio indivíduo. Segundo os mentores da revolução da razão há que defender a independência total do indivíduo face à sociedade que manifestamente o oprime.

O anarquismo, doutrina que defende a liberdade absoluta, declarando guerra a toda a autoridade e lei, contribuiu de forma destacada para o enorme caudal individualista, que se engrossava no final do século XIX, através dos seus principais mentores Mikhail Bakunine, Pierre Proudhon e Max Stirner. Activista revolucionário e escritor russo, Mikhail Bakunine foi o principal propagador do anarquismo colectivista e, ao associar as ideias libertárias com o movimento operário, lançou as bases do anarco-sindicalismo. Proclama a sociedade como uma federação de associações livres de trabalhadores recusando assim toda a herança civilizacional, toda a história do homem, toda a ciência humana. Max Stirner dotado de um espírito herético e libertário foi o teórico do anarquismo individualista, definia-se como “único” e defendia que “a sociedade oprime e aniquila a vontade individual”. Stirner, atormentado pelo ódio, era um teórico da libertação total do indivíduo apoiando o assassinato de expoentes do Estado, como soberanos, presidentes da república, generais, etc. Stirner baseia-se no vigor antiautoritário do indivíduo e concebe a sociedade como um conjunto de pequenos produtores auto-suficientes. “Todo o direito estabelecido é um direito que me é estranho” e “só pelo crime o indivíduo pode destruir o poder do Estado” são frases de Stirner que dispensam qualquer comentário. O teórico incontestado do socialismo anarquista foi Pierre-Joseph Proudhon, para quem todo o controlo do homem sobre o homem era sinónimo de escravidão. Defendia uma organização social baseada no mutualismo, na solidariedade e na livre associação, porém ao dizer “O proprietário, o gatuno, o herói, o soberano, pois todos estes nomes são sinónimos”, transparece o absurdo, equivale a dizer que o bem e o mal também são sinónimos, o irracionalismo individualista atinge aqui proporçoes delirantes.

Ludwing Feuerbach, alemão representante de peso da esquerda hegliana inspirou o socialismo utópico. Advogava que “o homem é para o homem o ser supremo”, o mesmo é dizer que o homem é o ser absoluto. Fomenta-se, assim, a ditadura de cada homem sobre o seu semelhante. Seguindo este raciocínio as conclusões são mirabolantes, assim, na actualidade temos seis biliões de seres supremos onde cada um deve ter a liberdade total para impor os seus caprichos a todos os outros. Karl Marx feuerbachiano convicto, juntamente com Friedrich Engels, viria a fabricar o comunismo, também designado socialismo científico, cujo objectivo era a abolição do Estado. Frase sua que prova isso mesmo: “O comunismo é o movimento real que abole o estado actual”. Na base do comunismo assenta o individualismo pois afirma a primazia na suficiência e autonomia do homem. O seu humanismo é ateu, nega a existência de Deus e visa instalar a ditadura do proletariado através da luta de classes.

Saltando do liberalismo radical de Marx para o liberalismo moderado britânico, sobressai o importante economista e filósofo escocês Adam Smith. Considerado o pai da economia moderna, defendia que as nações seriam tanto mais fortes e prósperas quanto mais permitissem que os indivíduos pudessem viver de acordo com as suas iniciativas. Adam Smith teorizou que os indivíduos poderiam estruturar a sua vida económica e moral sem se restringirem às intenções do Estado e tentou conciliar o interesse egoísta individual com a desordem social. Advogava que a iniciativa privada deveria agir livremente sem entraves. Ainda no século XIX, o filósofo inglês Jeremy Bentham, mudando o paradigma ético fundou a moral utilitarista. Defendia que a crença na lei natural, em direitos naturais ou em contratos sociais não passava de superstição. Apregoava “A maior felicidade para o maior número”. Ao negar os direitos naturais, Bentham subverte a liberdade individual beneficiando assim os opositores da autoridade e da ordem estabelecida. John Stuart Mill, filósofo e economista britânico, influenciado pelas teorias económicas de Adam Smith, cuja filosofia combina o utilitarismo de Bentham e o positivismo francês foi dos pensadores liberais mais influentes. Adaptou o utilitarismo ao liberalismo. Diz Mill “O único fim em vista do qual a humanidade está autorizada, individual ou colectivamente, a interferir com a liberdade de quaisquer dos seus membros é a auto-protecção”. O mesmo é dizer que qualquer indivíduo deve ter total liberdade de acção. A época liberal contribuiu determinantemente para o surgir do Capitalismo moderno graças à fomentação da iniciativa privada e à teoria estatal de «deixar fazer, deixar passar». O individualismo conduziu a que, na primeira metade do século XIX, a burguesia egoísta e cobiçosa vivesse satisfeita no seu mundo livre ignorando a pobreza e o infortúnio dos milhares de desenraizados ao seu redor.

Os teóricos do socialismo, fiéis representantes do liberalismo moderado, deram também o seu contributo para o reforço do individulismo. O socialismo, ou socialismo utópico é essencialmente um produto da Revolução Industrial, que despoletou no século XIX, na sua origem está o filósofo francês Charles Fourier que idealizava que cada homem deveria conseguir o bem-estar trabalhando segundo as suas próprias inclinações, o inglês Robert Owen, pioneiro do socialismo utópico, foi o primeiro a empregar o termo «socialismo», e o político socialista francês Louis Blanc. Filósofo do século XIX vinculado intelectualmente ao socialismo francês foi também Auguste Comte. Aderente à maçonaria, Comte elaborou o positivismo e a sociologia para apressar a reforma social e modificar a sociedade de acordo com os novos padrões egocêntricos. O positivismo inspirando-se no empirismo inglês e em filósofos do Iluminismo visou substituir em tudo o absoluto pelo relativo. Assistimos, desta forma, a um novo reforço do individualismo. O saber positivo é um saber de factos, mas estes factos dependem da perspectiva do sujeito, os fenómenos são assim entregues à arbitrariedade humana, logo, permitindo as interpretações mais convenientes. A teoria da realidade de Comte é extremamente redutora e totalizadora pois sustenta que só o positivo, ou seja, o que é visível e o relativo podem considerar-se real.

Querendo afastar a existência de toda a transcendência de forma a ofuscar o farol orientador do bem supremo, abrindo assim caminho ao relativismo moral, emerge o materialismo, que embora não sendo novidade ganha uma nova dimensão no século XIX. Karl Vogt, materialista alemão famoso, possesso de irracionalismo, afirma que “os pensamentos estão para o cérebro tal como a urina para os rins”. Ainda um outro seu conterrâneo e contemporâneo, Jakob Moleschott tenta provar que é o nosso corpo que comanda o nosso pensamento e a nossa vontade depende da alimentação que lhe oferecemos. Na mesma linha de pensamento, Ludwing Feuerbach dizia “O homem é aquilo que come”. Desta forma, o espírito não tem espaço num corpo que vale apenas pelo que transforma. Ludwig Bucher, outro materialista alemão, diz que só devemos aceitar como verdadeiro aquilo que podemos ver, imaginar, medir, pesar. Ao defender que o espírito faz parte da força que é uma simples manifestação da matéria retira a liberdade ao homem para se livrar do determinismo que prende à medíocridade. O individualista materialista nega a evolução e a possibilidade do homem crescer para a excelência. Negando a existência de uma alma separada do corpo, argumentando que a força está ligada à matéria, nega a existência de um supremo bem fora do próprio indivíduo. Sustenta ainda, Bucher, que “não há diferença entre um cérebro que pensa, um músculo que se contrai ou uma glândula que segrega”. Igualar o órgão responsável pela consciência e pelo discernimento a um músculo como o pénis, permite ao individualista livra-se assim de qualquer responsabilidade sobre os actos que comete. Presenciamos, através das teses deste materialismo extremo, o irracionalismo e o individualismo em perfeita harmonia.

Entretanto, alargando-se o campo do irracionalismo, aparece o movimento artístico e filosófico intitulado romantismo como reacção ao culto da razão. Cultura que medrou no espaço essencialmente urbano levou a que alguns dos seus seguidores publicitassem que, o ócio era o ideal do génio e a inércia a primeira virtude romântica. Instituiu-se a obrigação do romântico liberal viver intensamente a vida e dar azo ao sonho. O espírito romântico designou toda uma visão de mundo centrada no indivíduo. Os autores românticos ao voltaram-se cada vez mais para si mesmos, imergiram em completo desespero e, tragicamente, muitos deles puseram termo a própria vida.

A terminar a época novecentista, o alemão Friedrich Nietzsche antidemocrático e simultaneamente antitotalitário revela-se um representante fidedigno do individualismo aristocrático. Filósofo bêbado de antimoralismo, potenciador da cobiça e dos desejos, Nietzsche viria a inspirar correntes políticas antagónicas como o nacional-socialismo e o comunismo. O primeiro alimentou-se do seu vitalismo enquanto o segundo do seu espírito destrutivo e do obcecado ateísmo. Diz Nietzsche no seu Para Além do Bem e do Mal “A moral das intenções tornou-se um preconceito, deve ser suprimida, viva o imoralismo”, desta forma não haveria barreiras às vontades individuais por mais aberrantes e intolerantes que fossem. Para Nietzsche a condição fundamental de toda a vida é o perspectivismo marcadamente individualista.

Entramos no século XX com o neurologista austríaco Sigmund Freud, o fundador da psicologia analítica ou psicanálise, a qual, no seu entender, não era mais do que uma troca de palavras entre o paciente e o médico. Este afamado fanático do sexo atribuiu desde cedo uma importância extrema aos impulsos sexuais e aos mecanismos inconscientes ou de recalcamento que a psicanálise pode apurar. Segundo Freud, a história do ser humano é marcada pela repressão, assim, ao atacar os constrangimentos e ao desviar os costumes contribuiu decisivamente para a emancipação sexual livre de quaisquer pudores. Para Freud a vida normal em sociedade exige o sacrifício dos instintos básicos do indivíduo, entendendo assim que, os instintos indomados e insatisfeitos podem desembocar em doença, em perturbação mental. Freud sempre encarou os sintomas neuróticos como o resultado da repressão dos impulsos sexuais. Portanto, não se pode desligar os ensinamentos de Freud da promiscuidade sexual moderna. Há incontornavelmente uma conexão forte entre Freud e o instigar a que o máximo prazer individual seja o valor fundamental na sociedade contemporânea.

Em conversa com uma amiga, recentemente consultada por um psicoterapeuta, observei com curiosidade que no seu discurso verbal proferia com frequência ordinarices que não faziam parte do seu vocabulário habitual. Ao ser questionada do porquê de tal linguagem obscena respondeu que o psicanalista a tinha aconselhado a soltar os seus recalcamentos, a libertar-se daquilo que a reprimia. Assim lançava a sua cólera ordinária em cima do primeiro interlocutor disponível. O narcisismo, o egoísmo, o mau carácter e a falta de respeito são desta forma legitimados pelas terapias mentais modernas inspiradas em Freud. Contudo, Freud tinha razão ao defender que muitas vezes são os impulsos irracionais que determinam o que pensamos, o que sonhamos e o que fazemos. A psicanálise viria a influenciar, nos anos 20, a arte e a literatura dando origem ao surrealismo. O escritor surrealista francês André Breton afirmou que a arte devia provir do inconsciente, numa inspiração totalmente livre onde as diferenças entre sonho e realidade se esbatem. Ao atrofiar o discernimento da consciência, com palavras e imagens que estão para além da realidade, abre-se a porta ao subjectivismo, à relativização de valores, à imprecisão do certo e do errado. O individualismo violando as mentes alheias, com a cultura surrealista, ganha novo folgo.

Após a Primeira Guerra Mundial o marxismo é recuperado e repensado pela escola filosófica de Frankfurt, dirigida pelo filósofo e sociólogo alemão Marx Horkheimer. Este nicho intelectual possuía um elenco de pensadores de real destaque: Theodor Adorno; Walter Benjamim; Herbert Marcuse e o freudiano Erich Fromm. Mais tarde juntou-se-lhes Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão que é dos principais representantes de «teoria crítica» da escola de Francoforte. As investigações desta escola vão desde a sociologia à estética e do freudo-marxismo à crítica da tecnicidade. O filósofo alemão Ernest Bloch, marxista assumido, falecido em 1971, diz “Considero a libertação da consciência [...] como uma das tarefas fundamentais do materialismo revolucionário de hoje”. Libertando-se a consciência fomenta-se a brutalidade e legitimam-se as maiores bizarrias.
O marxismo durante o século XX sofreu uma metamorfose, o seu fracasso na economia e a patente desumanidade obrigou à revisão das suas teses. Lavando a face e mudando de estratégia ataca astutamente, nas últimas décadas, na área da cultura. O marxista italiano António Gramsci preparou uma revolução cultural visando a destruição dos valores ancestrais, criando desta forma uma nova cultura. A ideia é a infiltração dos pressupostos marxistas na cultura existente para a transformar numa nova cultura materialista longe da ideia de Deus e de todos os valores transcendentes. Mudando-se os valores modifica-se o pensamento, e modificando-se o pensamento o êxito será fácil acreditam os novos marxistas. Assustador e na realidade é o que se está a passar perante a incapacidade de reacção das populações face ao sufoco das sofisticadas propagandas que a tecnologia moderna permite.

O Círculo de Viena, grupo de filósofos e cientistas, inspirado na obra do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, engendrou o neopositivismo lógico, também designado empirismo lógico. Ofereceu à filosofia um novo ponto de partida e um forte dinamismo, contudo, o neopositivismo situa-se no prolongamento do empirismo inglês do século XVIII e do positivismo de Stuart Mill e de Auguste Comte. Liga-se directamente à corrente filosófica do empirismo-criticismo de Ernest Mach e de Richard Avenarius do século XIX. O neopositivismo debruça-se sobre a análise lógica da linguagem que considera como o único domínio reservado à filosofia. O utensílio cujo emprego é constantemente recomendado pelo neopositivismo lógico é o «princípio de verificação». Trata-se de compreender aquilo por que uma afirmação é verificada, daí se chega ao extremo em que tudo o que não é verificável não tem sentido. Hans Reichenbach, Moritz Schlick e Rudolf Carnap, que concebe a estrutura do mundo no seio do sujeito individual, são os seus principais representantes. Os neopositivistas, discípulos de Hume, sustentam que não é possível passar para além da experiência sensível pois para além da experiência não há linguagem com significado. Desta forma se nega todo o conhecimento milenar com base na evolução espiritual abrindo-se caminho para as interpretações factuais do momento. Por outro lado, ao escravizar o indivíduo ao rigor da linguagem lógica, desumanizando-o, aprisiona o ser humano ao mecanicismo involutivo.

Na continuidade do positivismo atinge-se o cume do relativismo com o filósofo austríaco Paul Feyerabend conhecido pelo seu anarquismo epistemológico. Dando continuidade às teses de Kuhn e de Lakos argumenta que não há sistemas de valores universais para quê se estabeleçam comparações do que é bom e do que é mau, chega a dizer que “em qualquer circunstância ou etapa do desenvolvimento do ser humano, só se pode defender um princípio. Refiro-me ao princípio do vale tudo”. Numa sociedade em que vale tudo a justiça não vale nada, e está aberto o caminho ao despotismo.

Inspirado pelo filósofo empirista Franz Brentano, o judeu Edmund Husserl representante do subjectivismo racionalista, fabricou a fenomenologia e atribui a primazia ao sujeito individual. No entanto, a fenomenologia reduz o mundo ao que aparece à consciência e, na medida em que aparece, o fenómeno fica reduzido à consciência de cada um. O ego ou o “eu” passa a ser o centro da consciência, Husserl chega a chamar à sua filosofia egologia pura, visto que o ego ocupa o lugar central do seu pensamento. Dotado de pensamento pessimista, defendeu a suspensão da crença, não acreditava que a verdade fosse possível de alcançar com a metafísica ou com os fundamentos da filosofia. Entende que a verdade absoluta revela-se no fenómeno, no dado, onde o mundo fica reduzido ao que aparece à consciência de cada indivíduo. Diz Husserl “designo por essência o que se encontra no ser autónomo de um individuo e que constitui o que ele é”. Imediatamente a seguir à 2ª Guerra Mundial, a fenomenologia teve o seu apogeu devido à promoção feita pela Escola de Viena. O método fenomenológico situa-se na ponta extrema do empirismo e do positivismo. A fenomenologia acha possível o conhecimento imediato do objecto qualquer que ele seja. A evolução da fenomenologia desemboca no existencialismo, corrente esta, que constitui originalmente uma reacção contra o hegelianismo e a favor da individualidade, pois é uma filosofia que afirma a originalidade da existência individual. O termo existência designa exclusivamente a realidade do eu concreto e mundano. Para o existencialismo, a existência é o fenómeno fundamental e a sua estrutura originária de pensamento é a liberdade absoluta, liberdade esta que não está submetida ou ligada a nada que de alguma maneira a determine ou dirija. A teoria existencialista interpreta o ser como fenómeno que aparece ante a existência, cujo princípio fundamental é a liberdade.

Após a Segunda Guerra mundial democratas e comunistas governam o mundo. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, existencialista ateu agarrado ao marxismo, pró-comunista, dá ênfase ao “eu”. A liberdade para Sartre não pode ser determinada ou regida por fins ou por um mundo de valores. Sartre adopta uma óptica individualista ou subjectiva. Admite que não há mais nada a não ser a existência concreta do homem sustentada no nada e como tal recomenda o aproveitar a vida, a potenciação do prazer sem limites. Para Sartre o homem não tem nenhuma essência por isso deve criar-se a si mesmo e está condenado a improvisar. A angústia de Sartre conduz a que o homem entre em perdição e assim se legitimem todas as suas acções. Ao afirmar “O homem está condenado a ser livre” significa que não deve respeitar valores eternos nem normas que nos orientem, estamos totalmente entregues a nós próprios. Esquece-se assim que o homem é um animal social. O desespero do humanismo de Sartre é visivel quando diz “Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento”. Na mesma linha individualista encontramos o seu colega, filósofo existencialista francês, Maurice Merleau-Ponty, representante da fenomenologia existencial e defensor do comunismo da Rússia soviética, afirma «Eu sou o meu corpo» e lança assim mais esperanças para o enorme exército individualista ávido de validações para as suas extravagâncias. Ao reduzir a pessoa apenas ao corpo, Marleau-Ponty nega toda a transcendência e desliga-se do mundo exterior. Reduz-se a si mesmo, nada mais importa a não ser o seu próprio corpo mergulhado na indiferença para com o meio ambiente que o envolve. É, assim, desaproveitada toda a história do homem.

No engrossar do antropocentrismo encontramos a ética humanista que se reforça com o judeu psicanalista, influenciado por Freud e Marx – Erich Pinchas Fromm. Esta ética baseia-se no princípio de que “Só o próprio homem, e não uma autoridade que o transcenda, pode determinar o critério de pecado e de virtude”, pensamento de Erich Fromm. Esta ética impõe como único padrão o indivíduo isolado e egoísta. Erich Fromm, por outro lado, sente o perigo do individualismo em expansão e é pertinente ao proferir que “…esta «individuação» crescente significa crescente isolamento, insegurança, e consequentemente, dúvida no que diz respeito ao papel do indivíduo no Universo, ao sentido da sua vida, e juntamente com tudo isto, um sentimento crescente da sua própria impotência e insignificância com indivíduo”.

O filósofo francês Gilles Deleuze, falecido em 1995, influenciado por Nietzsche, é considerado um dos mestres do pensamento de vanguarda. Para Deleuze, “a filosofia é a arte de formar, inventar, fabricar conceitos”. Ou seja, os conceitos passam a ter uma noção relativizada, podem ter vários significados, à medida das vantagens particulares. A sua filosofia, caracterizada pela vitalidade e pelo desejo, cruza-se com a psicanálise, nomeadamente a freudiana. Reduz o desejo ao complexo de Édipo. Na publicação de L’Anti-Edipe, em 1972, escrito em colaboração com Félix Guattari, os autores reflectiam sobre o poder do desejo e atacaram a psicanálise como instituição que impede qualquer “produção do desejo”. Se a psicanálise já serve para auxiliar a libertar os desejos reprimidos, logo, desejos não naturais, será impossível de calcular que desejos pretende Deleuze produzir. Diz-nos, este vanguardista, no prólogo da sua obra Diferença e Repetição “Acreditamos num mundo em que as individuações são impessoais e em que as singularidades são pré-individuais”. O mesmo é dizer que o efeito de individuar, o acentuar as particularidades individuais, não devem respeitar as características que definem a pessoa. Podemos mesmo dizer que a obra de Deleuze é uma fábrica de individualistas. Em oposição, o cristão personalista francês, Emmanuel Mounier propõe a seguinte definição de pessoa: «Uma pessoa é um ser constituído como tal por uma forma de subsistência e de independência em seu ser; mantém esta subsistência mediante a adesão a uma hierarquia de valores livremente adoptados, assimilados e vividos num compromisso responsável e numa constante conversão; unifica assim toda a sua actividade na liberdade e desenvolve, por acréscimo e, por impulsos de actos criadores, a singularidade da sua vocação». Do lado contrário está o individualismo cuja tendência é libertar o indivíduo de toda a obrigação de solidariedade.

Quando se pensava que o cume do individualismo já tinha sido alcançado eis que surge o judeu Jacques Derrida, influenciado por Marx e Rousseau, completamente possesso de ódio a toda a ordem estabelecida. Engendra o desconstrutivismo visando demolir paredes espirituais e fronteiras naturais, argumentando que as diferenças devem ser banidas. O bem e o mal perdem a sua polaridade subvertendo-se todos os valores, a política contemporânea foi completamente influenciada por esta forma estranha de interpretar a realidade. Derrida morreu em 2004 pelo que a força da sua destruição é bem visível e ainda incalculáveis as consequências da inversão de valores e do apelo à destruição. A ideia era desconstruir as estruturas normais do pensamento e substitui-las pela mente aberta às novas formas de pensamento. Derrida promoveu uma verdadeira lavagem cerebral às massas, cada vez mais embrutecidas, do mundo Ocidental.

Perante o júbilo do individualismo não podemos deixar de visionar a imagem dos dois burros que atados com uma corda ao pescoço puxam cada um para seu lado, exercendo forças em sentido contrário, não saindo do mesmo lugar. Ninguém dúvida que seria muito mais inteligente e produtivo se os burros caminhassem na mesma direcção em vez de teimosamente medirem forças. As teorias individualistas surgem para justificar os piores instintos do ser humano, como o egocentrismo, o culto do próprio “eu”. O homem ao fazer de si mesmo a medida de todas as coisas permite que os maus hábitos adquiridos sejam legítimos e exemplares. E sob a batuta despótica do egoísmo e da inveja, quer os humores momentâneos, quer os caprichos ganham uma dimensão incrível. A vitória das revoluções socialistas de tipo marxista permitiu a concentração de poder num único indivíduo. O totalitarismo guiado por princípios da religião individualista como, “cada indivíduo é um óptimo legislador universal”, permitiu que Lenine, Estaline e Mao Tse Tung precipitassem a morte a mais de 100 milhões de pessoas. Para o relativismo a deslealdade, a crueldade ou a ingratidão são tão louváveis como a honestidade ou a temperança, pois estas qualidades estão submetidas a pontos de vista.

O neoliberalismo, na continuidade do liberalismo, a partir da década de 1970 passou a significar a doutrina económica que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, acarinhando sempre o princípio das amplas liberdades individuais. Como tudo tem a sua evolução, mais recentemente surgiu o anarco-capitalismo, cuja génese está no economista inglês Gustave de Molinari. Porém, o economista americano Murray Newton Rothbard deu-lhe um novo dinamismo nos anos 50 do século XX. O anarco-capitalismo é uma versão radical do liberalismo clássico, considera que todas as formas de governo são prejudiciais e desnecessárias, incluindo as relacionadas com a justiça e a segurança. É também uma versão radical do libertarianismo e uma forma de anarquia que permite que um indivíduo isolado, mas forte em meios económicos, explore ao máximo todos os outros. Os anarco-capitalistas consideram-se parte da tradição anarco-individualista. Aplicando o individualismo às actividades económicas a ambição desmedida é reforçada e mesmo premiada, por outro lado o individualismo quando toma conta do indivíduo fraco de espírito e moralmente mal formado arrasta-o para a miséria, para o vício, para a depressão. O triunfo do individualismo provocou o aumento, de uma forma astronómica, das desigualdades sociais.

O Hedonismo, antigo sistema filosófico que fazia do prazer imediato o objectivo da vida, regressou em força ameaçando não só a evolução humana, como também uma indesejável regressão. O lema dos seguidores da nova (des)ordem passou a ser “eu faço o que eu quero”. Em nome do interesse individual soltam-se os instintos mais primários, não interessa o respeito pelo próximo. O comportamento excêntrico aumenta e o narcisismo manifesta-se apelando à atenção dos outros, como quem diz, olhem para mim, estou aqui. A educação obviamente deixou de ser uma prioridade na sociedade individualista de tradição liberal. A boa educação permite que o homem adquira competências para bem cumprir o seu dever, ou seja, garante que o homem seja verdadeiramente livre. O desrespeito por todas as regras de convivência social só tem um fim – a escravatura. A escravidão que resulta do individualismo exacerbado tem duas componentes, uma interna que prende o indivíduo à mediocridade dos seus vícios, e a outra externa que agarra o individualista à sorte daqueles lhes irão sustentar os vícios tornando-o eternamente depende. Este ser egocêntrico escravizado jamais será capaz de se orientar e, assim, ser verdadeiramente livre. O individualismo acaba por ser uma afirmação do bizarro e a imposição das vontades irracionais aos outros, cujo fim, invariavelmente, conduz ao isolamento e à solidão.

Construir sempre foi mais difícil do que destruir, porém o individualismo abre a porta não só à destruição como também à desconstrução que é a legitimação para toda a inversão de valores que o homem divinamente inspirado pelo supremo bem criou. O individualista não deixa espaço para a relação de confiança necessária ao bom relacionamento humano, uma vez que obcecado pelo dilatar da sua pança, sempre insatisfeita, corrói todos os outros em seu próprio favor. É como o eucalipto que seca tudo ao seu redor. Resta-lhe obter algum conforto imediato, mas fugaz, nas tecnologias da moda que prendem o homem à loucura da imaginação, da fantasia, do falso. A busca do reconhecimento intensifica-se à medida que se torna quase missão impossível, pois como cada cabeça sua sentença, a cada individualista a sua alienação. As relações pessoais não convivem bem com o conflito de interesses. Cada individualista sua mania que se traduz em actos de revolta contra a comunidade, em palavras provocatórias, em aparência desequilibrada. Ganha espaço a ingratidão, o desprezo pelo sacrifício dos antepassados que tanto derramamento de sangue, suor e lágrimas custou. Uma árvore que seja separada das suas raízes só tem um fim, a morte. A negação da ordem acarretará o aumento do sofrimento, físico e mental, a toda a humanidade. Para que no mundo se permita a máxima liberdade possível, será também necessário que restrições impeçam os assaltos violentos contra a liberdade de outros, o que revela que a máxima liberdade é um paradoxo. Pois, a máxima liberdade de uns será o inferno de outros. O mecanismo de desordem é um mecanismo de irracionalidade, porém parece interessar, e sem dúvida trazer vantagens, a alguém. A loucura do homem individualizado é impulsionada por aqueles que comandam os destinos do mundo.

Este pequeno estudo permite visionar que muito provavelmente um Governo Mundial, cuja trave mestra é o individualismo, está já na forja.

http://nacional-cristianismo.blogspot.com/

Discussão

Nenhum comentário pour “Fundamentação do Individualismo Pós-Moderno”

Comentar

Tem que estar conectado para afixar um comentário.