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Salvador Allende e Hugo Chávez: parecenças e diferenças na ‘Via Nacional para o Socialismo’

Salvador Allende e Hugo Chávez: parecenças e diferenças na ‘Via Nacional para o Socialismo’

Conheci e aconselhei três presidentes de esquerda, sendo estes o presidente Papandreou (Grécia, de 1981 a 1985), o presidente Salvador Allende do Chile (1970 a 1973) e o presidente Hugo Chávez.

Allende e Chávez partilham muitos objectivos estratégicos e favorecem políticas benéficas para a classe trabalhadora, o campesinato e os pobres urbanos. Levaram também a cabo programas que levaram à recuperação do controlo nacional sobre certos sectores estratégicos da economia, redistribuindo a terra (reforma agrária), deslocando o orçamento estatal de modo a favorecer programas sociais para os pobres e levando a cabo uma política independente anti-imperialista no que diz respeito às suas relações externas.

Em termos históricos e de lógica social, tanto um como o outro partilham uma crença comum nos processos constitucionais e eleitorais, num sistema multipartidário, numa economia mista e em associações comerciais, laborais e cívicas independentes.

Apesar das convergências e semelhanças entre Allende e Chávez, existem também importantes diferenças políticas, responsáveis pelas diferenças nas suas trajectórias. Chávez encaminhou-se para a mudança política antes de levar a cabo uma transformação socio-económica profunda, criando uma base constitucional sólida e um ambiente político favorável. Allende, por sua vez, aceitou o sistema político existente e implementou alterações socio-económicas radicais. O resultado, Allende deparou-se constantemente com bloqueios políticos e com obstáculos institucionais que limitaram a sua capacidade de conseguir concretizar todo o potencial das mudanças estruturais. Em contraste, as reformas políticas de Chávez originaram uma compatibilidade entre as instituições políticas e a mudança socio-económica – minimizando o obstrucionismo da oposição.

Secundariamente, o governo de Allende durou menos de 3 anos enquanto que Chávez governa há quase uma década e ainda mantém a sua popularidade. O golpe militar no Chile em Setembro de 1973 destruiu o Governo de União Popular e a ditadura militar durou 15 anos (até 1989). Na Venezuela, um golpe militar (11 para 12 de Abril de 2002) durou apenas 48 horas antes de ser derrotado e devolvido o poder a Chávez. A razão pela qual o golpe resultou no Chile e falhou na Venezuela deveu-se ao facto de Chávez ter conseguido construir uma base substancial de apoio entre os militares e ter desenvolvido uma aliança estratégica entre as massas militares e as massas populares, enquanto que Allende cometeu o erro de confiar no suposto “profissionalismo” dos militares. Tanto Allende como Chávez tiveram que enfrentar bloqueios dos ‘patrões’, tentativas por parte da classe capitalista para acabar com a economia de modo a fomentar o descontentamento e derrubar o governo. Tanto num país como no outro a massa dos trabalhadores, dos técnicos e de alguns executivos intervieram em apoio ao governo. Contudo, enquanto que Allende devolveu a esmagadora maioria das fábricas aos seus donos capitalistas, Chávez despediu 15.000 executivos e supervisores que deram origem ao bloqueio e substituiu-os por pessoas que lhe são leais. Enquanto que Allende permitiu aos generais de direita purgar os oficiais leais antes do golpe, Chávez expulsou e encarcerou os oficiais militares depois do golpe falhado.

Por outras palavras, Chávez é um realista político que compreendeu melhor que Allende os limites da democracia burguesa e que estava disposto a utilizar as prerrogativas do poder executivo para defender o governo popular democrático contra os seus inimigos oligárquicos, internos, e imperiais, externos.

Chávez vislumbra o processo de transição revolucionária, democrática e socialista com base no poder institucional e popular organizado em organizações de massas. Allende via a mudança socialista principalmente através das instituições já existentes e minimizou o papel das instituições do poder popular – dando origem a uma tensão constante entre os partidos políticos e os concelhos comunitários.

Tanto Chávez como Allende se opuseram ao imperialismo dos EUA e às suas guerras ( o Vietname nos anos 60 e 70, e o Iraque e o Afeganistão actualmente). Mas a política externa de Chávez é mais activa, promovendo a integração Latino Americana através da ALBA, o Banco do Sul e os acordos de comércio bilateral com a China, a Rússia, o Irão, o Brasil e a Argentina. Allende estava mais virado para o Pacto dos Andes, o movimento dos não alinhados e as ligações aos regimes social-democratas europeus como a Suécia e a Alemanha. Como resultado Chávez tem sido muito mais bem sucedido em isolar e derrotar diplomaticamente Washington do que Allende com os seus esforços constantes de conciliação com os EUA.

O paradoxo político é que o governo de Allende, baseado primariamente em autoprofessados partidos e sindicatos ‘marxistas’, nunca conseguiu obter uma hegemonia sobre a maior parte das massas (principalmente entre as mulheres pobres) enquanto que o presidente Chávez tem conseguido levar a cabo maiorias chavistas em 12 eleições nacionais, locais e ainda em referendos.

Durante o seu mandato o presidente Allende foi um testemunho do tempo – uma alternativa claramente democrática e socialista aos regimes clientela dos EUA. Ainda hoje as fábricas controladas pelos trabalhadores, os conselhos populares do bairro e o poder popular sob Allende servem como referências importantes para a actual transição para o socialismo na Venezuela. Mas o presidente Chávez foi muito mais longe e profundamente em algumas áreas de transformação social: criou as milícias populares, descentralizou as despesas orçamentais para os conselhos dos bairros e organizou um partido unitário e socialista de massas, de modo a evitar os conflitos intra partidários que assombraram a coligação multipartidária do governo de Allende.

Embora exista uma continuidade histórica importante entre o socialismo democrático de Allende e o socialismo do século XXI de Chávez, ambos reflectem fundações importantes na via para a libertação nacional, é claro que Chávez, muito mais que Allende, consegue vislumbrar a importância decisiva da construção de uma base de massas para o poder popular fora do âmbito restrito da arena eleitoral e parlamentar. Enquanto que Allende erradamente idealizou as instituições democráticas burguesas do Chile, atribuindo-lhes um estatuto não classicista, Chávez combina as normas democráticas da política eleitoral com a necessidade de construir organizações independentes das classes no poder. A História demonstrou, pelo menos até ver, que o realismo de Chávez tem sido muito mais eficaz na obtenção e na manutenção do poder do que o idealismo de Allende.

In Global Research, 14 de Maio de 2008, traduzido por Flávio Gonçalves

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