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Cultura

O Regresso dos Páras

O Regresso dos Páras

Hoje, sábado, vão de novo correr lágrimas de luto pela morte de três jovens na guerra colonial. Em Cadima (Cantanhede), Castro Verde e Gião (Vila do Conde) realizam-se ao fim da tarde os funerais dos soldados pára-quedistas José Lourenço, António Vitoriano e Manuel Peixoto, mortos respectivamente com 19, 21 e 22 anos na sequência de uma emboscada a uma coluna militar portuguesa feita por guerrilheiros do PAIGC no dia 23 de Maio de 1973.

As duras condições da guerra naquela zona impediram, então, o resgate dos corpos destes e de mais oito militares do exército mortos na mesma altura. Por questões de saúde pública, o médico do aquartelamento ordenou ao fim de dois dias o enterramento dos corpos. Na altura, e dadas as circunstâncias extraordinárias de enterramento num cemitério de campanha com precárias condições, um oficial português entendeu proceder à identificação do local para eventual utilização futura. Trata-se de um documento único, com cópia do croquis apensa aos processos de cada um dos três pára-quedistas (ver relacionados no final deste texto).

Trinta e cinco anos depois, aquele desenho foi decisivo para a concretização de uma missão que à partida poderia parecer impossível. Em Março deste ano, numa operação patrocinada pela Liga dos Combatentes (LC), apoiada pelo Ministério da Defesa, Universidade de Coimbra, Instituto de Medicina Legal, e dinamizada pela União Portuguesa de Pára-Quedistas (UPP), deslocou-se à Guiné uma equipa de militares, uma arqueóloga, antropólogos e um geofísico. O objectivo era muito claro: localizar e exumar os restos mortais dos soldados que há 35 anos tinham morrido na emboscada ocorrida próximo de Guidage.

Esta era, para os pára-quedistas, uma questão em aberto deste o final da guerra colonial, sobretudo porque sempre tinham conseguido proporcionar funerais dignos aos seus militares mortos em combate. Por isso, já em 1995, quando a companhia de pára-quedistas do major-general Avelar de Sousa, presidente da direcção da UPP, se deslocou à Guiné-Bissau, foi equacionada a hipótese de proceder ao levantamento dos corpos. A ideia foi logo abandonada porque, diz Avelar de Sousa, “havia a informação de que uma das famílias não estava interessada em reabrir a ferida”.

Pela experiência dos militares envolvidos neste processo, a questão das famílias e o modo como reagem a uma situação deste tipo é decisiva para avançar ou não com a operação. Como diz o major-general Hugo Borges, então um dos militares envolvidos na emboscada de Guidage, “uma coisa é pensar ir buscar os corpos, outra é a atitude das famílias, sem esquecermos que estamos a falar de um país independente”. Hugo Borges, que desvaloriza o que possa ser a sua opinião pessoal sobre o tema, sublinha que “como comandante devo fazer o que a família do meu soldado quiser”. E se a família não quer regressar àquele passado, como sucedeu no caso dos familiares de alguns dos membros do Exército enterrados em Guidage, “isso tem de ser respeitado”.

A questão é polémica, pelo precedente que pode abrir de fomento de movimentações no sentido de passar a ser reivindicado o regresso das ossadas de todos os militares mortos em África. Avelar de Sousa revela ter “consciência de que foi dado um pontapé numa colmeia de abelhas. Isto é uma atitude de vanguarda, mas é a maneira de ser e de estar dos pára-quedistas”. O major-general Ferreira Pinto assegura ao Expresso ter a informação de que estará “a circular uma petição para se trazer para Portugal todos os corpos dos militares mortos em África, mas isso seria impossível”. O major-general Heitor Almendra recorda, de resto, que há pára-quedistas enterrados em Angola, por exemplo, “em cemitérios oficiais. Há um militar meu que foi enterrado em Luanda em 1961. Essa era a prática corrente das Forças Armadas. O primeiro pára-quedista que morreu em África foi Joaquim Afonso Domingos e está enterrado no cemitério de Negage. Morreu no dia 30 de Abril de 1961″.

Todos reconhecem, no entanto, que o problema se põe, não tanto em relação aos que estão devidamente sepultados em cemitérios convencionais de Angola, Moçambique ou Guiné, mas sobretudo, diz o major-general Ferreira Pinto, “às situações chocantes como as que têm detectado alguns antigos combatentes, que vão a África e vêm os seus camaradas sepultados em zonas de capim”.

Segundo o desenho feito em 1973, em Guidache deveriam estar dez militares enterrados. Porém, quando em Março foram feitas as escavações e levantadas as ossadas, detectaram-se onze corpos. Logo os investigadores perceberam que num momento posterior tinha lá sido colocado outro corpo. De entre os dez originais, três eram os pára-quedistas, dois eram nativos de recrutamento local e cinco pertenciam ao exército. Destes, há duas famílias que preferem não receber os restos mortais.

Nesta primeira fase só regressam os pára-quedistas. O orçamento para toda esta operação ronda os setenta mil euros e está a ser suportado pela Liga dos Combatentes, a que se junta o apoio da TAP no transporte gratuito das ossadas, bem como a colaboração da Associação Nacional das Empresas Lutuosas, que se encarregaram graciosamente de tudo quanto respeita aos funerais. A explicação para de momento terem vindo para Portugal apenas os corpos dos pára-quedistas reside no volume de informação disponível sobre cada um dos mortos. Acontece que, explica Hugo Borges, “em relação aos Páras tínhamos todo o histórico de cada um deles, o que permitiu uma identificação rigorosa dos restos mortais”. Acresce que, por coincidência, a arqueóloga presente na equipa que se deslocou à Guiné é irmã de António Vitoriano, um dos pára-quedistas mortos.

Quanto aos que não vieram ainda, tudo está dependente dos resultados dos testes de ADN, e ainda não há nenhuma data para a sua divulgação.

Embora a operação no terreno tenha decorrido em Março, começou a ser preparada há mais de um ano. A sua concretização prática acabou por ser muito mais complexa do que inicialmente imaginara Hugo Borges. “Quando lá cheguei, pensei que não íamos conseguir nada. Tínhamos na Guiné o coronel Mohamed Danif, que foi oficial pára-quedista e reside lá. No terreno resolveu-nos problemas que parecendo insignificantes, de outra forma teríamos tido uma extraordinária dificuldade em ultrapassar”.

A presença em Guidache durou quinze dias. A primeira semana foi apenas de preparação logística, assegurada pelos três militares idos de Portugal. Tinham, entre outras coisas, de assegurar que na zona do cemitério seriam feitas escavações até uma cota de menos oitenta centímetros. Era necessário fazer a delimitação do cemitério e deixar tudo pronto para que, quando os técnicos chegassem, pudessem começar a trabalhar imediatamente.

As dúvidas eram muitas. Afinal, tudo acontecera há 35 anos e os corpos tinham sido sepultados num terreno muito uniforme. Hugo Borges diz agora que “era uma área muito grande para ser cavada à mão, mas os técnicos fizeram um trabalho brilhante”.

Hoje é o culminar de tudo quanto tem vindo a ser feito. Os restos mortais dos soldados pára-quedistas chegaram a Portugal na noite de 4 de Julho, provenientes de Bissau. Hoje, a partir das 10 horas, há uma concentração seguida de missa na igreja da Força Aérea, em S. Domingos de Benfica, em Lisboa. A seguir, os restos mortais seguem para a Base Aérea n.º 1, em Sintra, onde embarcarão numa aeronave da Força Aérea que os transportará para o Aeródromo Militar de Tancos. Às 14 horas chega à Porta de Armas da Escola de Tropas Pára-Quedistas a viatura com as três urnas e dá-se início ao “Último Adeus dos Pára-quedistas” junto ao Monumento aos Mortos em Combate. Terminada a cerimónia, sairão cortejos fúnebres em direcção a Cadima, Castro Verde e Gião. Nos cemitérios destas três localidades serão prestadas Guardas de Honra pelas Unidades Pára-quedistas.

http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/376663

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