Vi ontem o filme italiano “O meu irmão é filho único”. Trata-se de uma obra muito interessante, cuja acção se desenrola nos turbulentos anos 60. Dois irmãos, Manrico (um nome cuja conotação verdiana não será ocasional, até pela forte ligação que tem à mãe, evocadora de Il Trovatore) e Assio, um comunista e o outro fascista (este, militante do MSI), digladiam-se amiúde, inicialmente por motivos familiares, depois por motivos políticos e finalmente por motivos amorosos (ambos gostam da mesma mulher, também militante comunista). Vivem na cidade de Latina, burgo fundado pelo fascismo em 1932 com o nome Littoria (adoptou o nome actual em 1946).Há alguma tendência para a caricatura das duas posições políticas, nomeadamente, como era de esperar, a fascista: os militantes missinos aparecem como não especialmente evoluídos, com uma forte tendência para a pancadaria e os desacatos contra os comunistas; Mario, o vendedor de atoalhados que inicia Assio nas virtudes do regime mussoliniano (”deves fidelidade aos amigos, fidelidade à Pátria e fidelidade à Ideia”; “Il Duce tirou aos ricos para dar aos pobres, alguma vez alguém fez isso?”), expressa o seu fervor ideológico por meio de fórmulas curtas, não elaborando o discurso. Não falta, no filme, a peregrinação a Predappio, local onde nasceu o Duce
Mas os comunistas também não são especialmente favorecidos, de que o exemplo (de um cómico impagável) é o coral do último andamento da Nona de Beethoven (em execução para as massas, pois “a arte individual é simples masturbação”, grita Manrico), em que a Ode à Alegria de Schiller é “desfascistizada” (sic!), substituindo-se-lhe uma ode aos grandes líderes comunistas, de Mao a Estaline!
Fidelidade não é o forte de Assio, que rompe com o fascismo de uma forma violenta. A sua preocupação de infância, “aiutare i ultimi” (auxiliar os mais desfavorecidos), não lograda via fascismo nem via comunismo, tem a sua consecução num acto apolítico mas extremamente eficaz em termos sociais. Uma conclusão que não agradará aos ortodoxos de ambos os campos mas que o filme caracteriza com mestria e alguma poesia contida.
Não sendo uma obra-prima, “O meu irmão é filho único” é uma película a não perder, pelo retrato de uma época conturbada, pelos dilemas de uma juventude, pelos dramas sociais não resolvidos pelo boom industrial italiano do dopoguerra, por momentos de humor irresistíveis, pela interpretação soberba dos actores e por jorrar italianidade por todos os poros.
Odisseia, blogue pessoal do autor.
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Olá!
Ontem, sábado, assisti com duas amigas a este filme, aqui no Rio de Janeiro. A mim me tocou , profundamente, pois em 68, tinha 17 anos e completei os 18, no final daquele ano, experimentando a repercussão do maio mais marcante na juventude do mundo inteiro. Adorei o filme. Concordo com você que não é uma obra-prima, mas é muito bem feito, humaníssimo, com um tom familiar que traz saudade, pois naqueles tempos, o sentimento da família era muito mais forte que agora, segundo minha modesta observação. Parabéns pelo blog e pelo texto, seu blog é uma simpatia. Um carinhoso abraço bem carioca, tá?
Cida Torneros