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O mais duro prisioneiro da ETA

O mais duro prisioneiro da ETA

Espanha. Vai sair em liberdade após mais de duas décadas preso, por envolvimento em crimes de sangue. É um dos prisioneiros mais duros da ETA. O facto de ir viver num prédio onde residem vários familiares das vítimas está a gerar enorme polémica

O mais duro prisioneiro da ETA, José Ignacio de Juana Chaos, prepara-se para sair em liberdade ao fim de mais de duas décadas de reclusão e de várias greves de fome. Vai viver no terceiro andar do número 1 do bairro de Amara, em San Sebastián, País Basco, tendo como vizinhos pelo menos cinco familiares de vítimas da organização terrorista basca: três viúvas, uma mãe de um assassinado, três órfãos e um ex-sequestrado. Os protestos começaram de imediato e as portas da casa do etarra apareceram pintadas com várias palavras de ordem: “A Falange não perdoa, não esqueceremos, não perdoaremos.”

Nascido em Legazpia, em Guipúzcoa, a 21 de Setembro de 1955, o único emprego legal que alguma vez teve foi na Ertzaintza, polícia autónoma basca, da qual fugiu, em 1983, quando se descobriu que levava uma vida dupla e pertencia à ETA. Nos anos em que liderou o comando etarra em Madrid, entre 1984 e 1986, 112 pessoas foram assassinadas. Ele próprio matou 25, em 11 atentados, no espaço de apenas um ano. Integrou o grupo que metralhou um veículo do Exército, matando três militares, além de ter feito explodir um carro armadilhado na praça da República Dominicana, em Madrid, onde perderam a vida uma dúzia de guardas civis e ficaram feridas outras sete dezenas de pessoas. Foi preso em 1987 e permaneceu em silêncio durante todo o interrogatório.

Esteve, desde então, em reclusão, nas mais variadas prisões espanholas. Condenado a uma pena de três mil anos, cumpriu 18, reunindo condições para ser libertado em 2004. O ex-líder do comando da ETA na capital espanhola seria livre graças a Franco. É que Iñaki de Juana Chaos, como é conhecido, foi julgado de acordo com o Código Penal de 1973 e esse estabelecia como tempo máximo de pena efectiva 30 anos de prisão, com direito a redução por motivos de trabalho ou estudos, entre outros. O cenário da sua saída da cadeia de Algeciras fez soar o alarme na sociedade espanhola. Mas a Audiencia Nacional evitou a sua libertação ao acusá-lo de fazer ameaças terroristas a um magistrado e a cinco directores de prisões em dois artigos publicados no jornal basco Gara.

Foi então que decidiu recorrer a uma arma que já usara na década de 90: entrou em greve de fome a 7 de Agosto de 2006 e só teve que ser alimentado à força no hospital. Argumentava que já tinha cumprido a sua pena e que era uma injustiça estar preso. 63 dias mais tarde e 14 quilos a menos pôs fim à greve de fome, tendo recomeçado depois, quando foi condenado a mais 12 anos e sete meses de prisão por ameaças terroristas. O Supremo Tribunal decidiu depois baixar a pena para três anos e, a 2 de Março de 2007, o Governo espanhol autorizou a prisão domiciliária por motivos humanitários. Voltou a ordenar a sua detenção quando a organização terrorista anunciou o fim oficial do cessar-fogo permanente, em Junho de 2007, e o regresso à luta armada em todas as frentes.

No período em que esteve preso, casou com Irati Aranzabal, uma das poucas pessoas que ainda dão a cara para aparecer ao lado do etarra de 53 anos.

Antes de sair em liberdade voltou a fazer greve de fome contra “a inadmissível campanha mediática” em curso, referindo-se às notícias que têm saído sobre a suposta ocultação de propriedades para não pagar às vítimas dos seus crimes as indemnizações devidas. A Audiencia Nacional já lançou uma investigação para saber, por exemplo, porque é que a editora que publicou os livros do etarra, Txalaparta, não tem registo do pagamento de direitos de autor. Falta ver que recepção terá, em San Sebastián, uma vez que não tem direito a protecção policial.

In Diário de Notícias, 02 de Agosto de 2008

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