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A segurança global

A segurança global

O encontro multidisciplinar que a Fundação Luso-Americana organizou em Ponta Delgada, no mês de Julho, teve como efeméride de referência a passagem de Franklin Roosevelt pelos Açores, durante a Primeira Guerra Mundial.

Uma estada pelo arquipélago que lhe ficou como recordação encantatória e que, no entardecer da vida, lhe terá feito sentir o desejo, não realizado, de ali regressar para esperar o fim dos dias.

Mas, para além da recordação da histórica e acidental passagem pelo arquipélago, a referência que enquadrou as intervenções foi o sonho da reorganização de uma ordem mundial pacífica que animou a sua visão de futuro, para além da vitória militar na guerra de 1939-1945, contra os demónios interiores europeus.

Vitória em grande parte devida à forte liderança de ocidental convicto, com uma visão estruturante da solidariedade euro-atlântica, já alertado para o mundialismo e para a globalização a que corresponderia a fundação da ONU, a qual não contaria com a sua energia, coragem e visão do futuro.

Algumas das insuficiências originárias do projecto tinham directa ligação com lacunas de previsão do presente, uma das maiores dificuldades da gestão política que raramente consegue libertar-se de conceitos directores ultrapassados, em termos de assumir as mudanças da conjuntura que se sucedem em tempo acelerado.

Não lhe terá sido possível prever que a ordem nova da Carta, que deu corpo normativo à sua inspiração, seria rapidamente substituída pela ordem dos Pactos Militares, que durou até à queda do Muro de Berlim em 1989.

Assim como a euforia da vitória dos ocidentais, que explodiu com a desagregação do Pacto de Varsóvia, não deixou prever as mudanças de conceito estratégico, de cultura interna e de visão prospectiva, que se foi desenvolvendo na relação da NATO com a sua circunstância definitivamente globalista, e que incita a interrogações levadas ao limite da sua pressentida extinção.

A ultrapassagem da limitação geográfica de responsabilidades remete para simples recordação histórica a missão de libertar a Europa do Atlântico aos Urais; o desaparecimento da ameaça por um inimigo identificado e visível, fez da incerteza um elemento essencial da prospectiva; a eficácia do desafio do forte ao fraco, que subiu aos extremos com o terrorismo global, deu ao unilateralismo supremacia sobre a solidariedade do interesse colectivo; a unidade da estratégia cindiu-se em tendências, a da acção militar esmagadora que conduziu ao desastre no Iraque, a da diplomacia prioritária de uma Europa que tarda em ter um peso específico na vida internacional, que ainda não deixa prever o modelo da sua unidade política, que, na mesma geração, passou de versão do euromundo político para a debilidade resultante da carência de matérias-primas, de energia e de reserva estratégica alimentar.

São muito variados os pressentimentos sobre a evolução da relação dos ocidentais com a sua circunstância mundial, e também da relação interna transatlântica, como são discutíveis e pouco seguras as raras avaliações de pontos críticos identificados e a exigir a reformulação da definição de segurança que a NATO concretizou, e a resposta desregulada ao globalismo que a debilitou.

Mas talvez entre todas as manifestações de dúvidas, de quase certezas, e de fundamentalismos laicos e confessionais, esteja a consolidar-se a perspectiva de que a incerteza é a variável mais inquietante, que o capital de queixas do resto do mundo contra a passada regência política euromundista não está completamente apaziguado, que o conceito da casa comum que é a Terra não está suficientemente presente para enfrentar ameaças que não são militares e a rodeiam sem distinção de povos.

O que indicia que, para a urgência de segurança global, apenas se vislumbra, como alternativa, o aprofundamento do desastre.

A memória de Roosevelt deveria ser partilhada, porque entretanto a evolução da circunstância tornou estrutural a interdependência do interesse do seu país e do interesse ocidental, na definição da paz para os nossos dias.

In Diário de Notícias, 19 de Agosto de 2008

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