Aí por 1940, mais ou menos, um sujeito de nome Dale Carnegie, director do “Dale Carnegie Institute for effective speaking and human relations”, escreveu um livro que iria ter um sucesso estrondoso em todo o mundo: “How to make friends and influence people” (Como fazer amigos e influenciar as pessoas). Nessa década de 40, adolescente americanófilo fanático, em resultado da intensa propaganda americana (o cinema de Hollywood, o Readers’ Digest, os “Pocket Books”, o Collier’s, revista semanal que chegou a vender-se entre nós — em inglês, claro — a 25 tostões cada exemplar , etc., e mais ainda o prestígio de vencedor da IIGM adquirido pelos USA), comprei o livro de Dale Carnegie, que me entusiasmou e cheguei a levar para as aulas do liceu (o meu professor de História, cujo nome me escapa, viu o livro em cima da carteira, pegou nele, e pousou-o de novo, com um largo sorriso bondoso e irónico.)
Bem, o livro não é um disparate e até é agradável de ler, e há poucos anos comprei a edição portuguesa para o ter na estante, mas não o reli.
Das primeiras vezes que fui aos USA, admirei-me com a simpatia daquela gente que por tudo e por nada sorria para mim e para todos. Com o tempo pareceu-me ter descoberto o motivo: o sorriso é, segundo Dale Carnegie, uma das maneiras infalíveis de fazer amigos, de ser simpático, de ser amado pelo próximo. Depois verifiquei que esse sorriso estereotipado não era bem um sorriso (smile), mas um ricto (grin). Ora bolas, ao fim e ao cabo era uma manipulação inconsciente. Bem salienta Dale Carnegie, que com as recomendadas técnicas de agradar, as pessoas devem ser sinceras. Mas poderá a sinceridade ser prescrita com uma simples receita?
Verifiquei também na simpatia com que desconhecidos metem conversa connosco no autocarro. Mas, desilusão, quando o nosso interlocutor se lavanta para sair, a conversa simpática fica bruscamente cortada sem a mínima palavra de despedida, ou um olhar, ou outro gesto de real simpatia humana.
Tenho a impressão de que o manual de relações humanas de Dale Carnegie se transformou num manual de hipocrisia, e que aquela bondade humana de que os americanos se julgam possuídos não passa de uma grande treta. Por isso é que a minha americanofilia desapareceu, deixando atrás de si a desgradável sensação de eu ter sido parvo. E dou graças a Deus por nunca me ter enfiado naquele país de muitas nações, todas elas explorando o seu semelhante. Já dizia o português nos USA, quando telefonou para a RTP, quando esta, e muito bem, promoveu a campanha pela liberdade de Timor Leste, em relação à Indonésia. Todo o povo português, dum modo geral, se levantou desinteressadamente por Timor, e o luso-americano gritou: “Portugal está a dar uma lição ao mundo! Aqui na América esta gente só se preocupa com os dólares.” De facto, Portugal fez Timor Leste, o Povo português o salvou da perdição causada pelos doidos do 25 de Abril, e ele é ainda Portugal. “The smiling American”, de nome Henry Kissinger, ou outro da mesma laia, entregou Timor à selvajaria indonésia. Mas este insignificante Povo português, zeros à esquerda de zeros, sem se preocupar com o tamanho e a potência de outros zeros, fez o que humanamente devia ser feito. Eu não fiz, porque sou tímido e passivo, talvez um zero encapotado, um menos infinito, fiquei a ver, e gostei do que vi. E não sorri, chorei.
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