Vimos no capítulo I a ficção da potência estatal que se engrandece a si mesma, e que, vista de perto, não é mais que o arbítrio dos chefes de tribo que manipulam o Estado. Todos os movimentos sociais e políticos contemporâneos que se baseiam nesta ficção tendem a libertá-la de toda a limitação… e se esforçam para este fim por neutralizar as religiões. É que, para transformar o indivíduo numa função do Estado, é preciso subtraí-lo a qualquer outro condicionamento ou dependência. Ora, pertencer a uma religião implica que o indivíduo aceita uma dependência e se submete a dados irracionais que se não reportam directamente às condições sociais e físicas, mas que emanam muito mais do fundo da atitude psíquica de si mesmo.
A No Media Portugal encontra-se a publicar extractos da obra inédita em língua portuguesa “Presente e Futuro - de que será feito o futuro?” do pensador Carl G. Jung, uma selecção de textos efectuada, e traduzida, pelo Eng. Joaquim Reis. Se não conhecia o pensamento de Jung, conheça-o aqui em primeira mão.
Não é possível tomar posição a respeito das condições exteriores da existência senão quando se dispõe de um ponto de vista exterior a esta. As religiões, precisamente, dão, ou pretendem dar, esta base e, assim, a possibilidade de o indivíduo julgar e decidir livremente. Elas permitem ao indivíduo reservar-se, guardar distâncias perante a coacção irreprimível e concreta que emana das circunstâncias exteriores, às quais ele é entregue sem defesa, quando vive no mundo exterior e não sabe nem sente outras bases senão o asfalto e as grandes cidades. Se não existir mais que a realidade estatal, esta possui uma autoridade soberana. Pois, se existe apenas um condicionamento, e se nenhum outro se lhe opõe, o julgamento e a decisão livres são não só supérfluos como até impossíveis. Pois, então, o indivíduo não pode ser mais que uma função do Estado, qualquer que seja o nome dado ao princípio ordenador da sociedade.
Ora as religiões ensinam uma outra autoridade, que é oposta à do “mundo”. Elas ensinam que o homem é criação de Deus, suserania tão exigente como a do mundo. Estas exigências divinas, com seu carácter absoluto, podem subtrair o homem ao mundo de uma maneira tão radical como aquela pela qual ele se perde quando sucumbe à mentalidade colectiva. Tanto num caso como no outro, ele pode perder o seu julgamento e a sua livre decisão tanto em nome da doutrina religiosa como em nome do colectivo. É aliás manifestamente para este fim que tendem as religiões quando recusam todo o compromisso com o Estado.
Eu prefiro então – de acordo com o uso linguístico – falar de “confissão” em vez de “religião”. A confissão, de facto, por um acto de fé, afirma uma certa convicção colectiva, enquanto a palavra religião exprime uma relação subjectiva do sujeito com certos factores metafísicos, extra-temporais. A confissão, no essencial, é uma profissão de fé à face do mundo, e, por este facto, uma questão temporal, quando o sentido e o fim da religião residem na relação do indivíduo com Deus (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) ou na procura da libertação (Budismo). É sobre esta base que se ergue para cada religião a ética que ela professa, e que seria uma moral convencional se não estivesse subentendida pela responsabilidade individual perante Deus.
As confissões, como formações de compromisso entre a religião e a realidade do mundo, não puderam escapar, seguindo o seu próprio movimento, a uma codificação crescente da sua doutrina, das suas concepções, dos seus usos; nesta tendência, as confissões chegaram a um tal grau de exterioridade que o que constitui propriamente a sua essência religiosa passou a segundo plano; esta essência religiosa era feita da religião viva com seu ponto extra-temporal de referência, e dos problemas, dos avatares desta relação que havia de assumir. A óptica confessional mede o valor e a importância do apego religioso subjectivo pelo ardor com que é esposada a doutrina tradicional; aí, onde esta última é menos estrita (como no protestantismo), falar-se-á logo de pietismo, de sectarismo, de exaltação, desde que alguém pretenda colocar-se na percepção imediata que tem da vontade divina. A confissão coincide com a Igreja do Estado, ou, pelo menos, ela forma uma instituição pública que agrupa não só os verdadeiros crentes, mas também uma multidão de pessoas, de quem nada haveria a dizer, senão que elas são religiosamente indiferentes e que aí estão por hábito e tradição. É neste ponto que se sente de modo concreto a diferença existente entre confissão e religião.
Assim, a pertença a uma confissão não é sempre uma questão religiosa; ela diz respeito mais ao plano social, e daí que não traga uma contribuição sensível ao que respeita ao próprio fundamento e às estruturas do indivíduo, como entidade isolada.
Nota do LUSO: Esta distinção é fundamental para compreender a diferença essencial entre a religião judaica e a confissão judaica, e compreender a atitude de uns e de outros judeus, cuja designação tanta vez nos confunde. Mas o mesmo se poderá dizer das “religiões” e das “confissões” cristã e muçulmana. Por exemplo, o sionismo não pertence à religião judaica, mas sim à confissão judaica, como a Inquisição, dita espanhola, não pertencia à religião cristã, mas sim à confissão cristã. Do mesmo modo que o ‘sunnismo’ e o ‘shiismo’ pertencem à confissão islâmica, mas não à religião de Maomé. Daqui vemos que o perigo da massificação das pessoas é grande e real, mesmo que elas se digam “religiosas”.
As estruturas de base do indivíduo dependem unicamente da sua relação com uma instância que não é deste mundo. Nesta questão, o que importa não é uma profissão de fé, formulada da boca, em favor de tal e tal credo, mas o dado psicológico segundo o qual a vida do indivíduo depende não só do “eu” e das suas opiniões, ou de determinantes sociais, mas também e tão somente duma autoridade transcendente; não são nem as divisas étnicas, por muito sublimes que sejam, nem as profissões de fé, por mais ortodoxas que se pretendam, que são os fundamentos da autonomia e da liberdade do indivíduo; o fundamento desta liberdade é a consciência empírica, isto é, a experiência indiscutível duma inter-relação que não pode ser mais pessoal entre o homem e uma instância que não é deste mundo, relação que só ela é capaz de fazer de contrapeso “ao mundo e às suas razões”.
(…)
O homem, como ser social, não pode viver muito tempo sem uma trama de laços que o prendam à sociedade; do mesmo modo, o indivíduo não pode encontrar uma justificação real para a sua existência espiritual e moral, sem apelar a um princípio que não é deste mundo e que é susceptível de relativizar a influência por demais potente dos factores externos. O homem, que não está ancorado no divino, não está em estado de resistir, pelo efeito apenas da sua opinião pessoal, à potência física e moral que emana do mundo exterior. Para se afirmar em face deste último, o homem tem necessidade da evidência da sua experiência interior, da sua vivência transcendente, que só elas podem evitar o inevitável deslize para a massa colectiva. É certo que se pode constatar o embrutecimento e a degradação do sentimento de responsabilidade morais do homem da massa. Mas esta constatação puramente intelectual e o pesar moral que se sente ao fazê-la constituem uma posição puramente negativa que não teria senão o valor duma hesitação e um efeito de atraso na rota de atomização do indivíduo. Como estas constatações são apenas racionais, falta-lhes para serem importantes o impulso e a força que emanam duma convicção religiosa. Perante a razão do cidadão, o Estado ditatorial beneficia da triste vantagem não somente de absorver o indivíduo, mas também, pela sua fenomenologia psicológica, de mobilizar de qualquer maneira as suas forças religiosas.
O Estado colocou-se no lugar de Deus, e é por isso, nesta óptica, que as ditaduras socialistas são religiões no seio das quais a escravidão do Estado é uma espécie de culto divino. Contudo, se a função religiosa se encontra assim transgredida e falseada, isso não se pode realizar sem que, psicologicamente falando, sejam despertadas, de qualquer modo por trás da cabeça, dúvidas, suspeitas, que são imediatamente abafadas para se evitar o conflito aberto com a tendência reinante para a “massificação”. Deste estado de coisas, deste imbróglio, desta encruzilhada de dinamismos psicológicos, jorra, como é em geral o caso, um movimento que é uma sobrecompensação, a saber: o fanatismo. Este por sua vez toma as operações em mão e torna-se o braço de alavanca mais poderoso para abafar e eliminar todo o tipo de oposição. A constituição duma opinião livre será suprimida, a possibilidade de escolha moral será brutalmente eliminada, o fim justificando os meios, mesmo os piores. Desde então, a razão de Estado transforma-se em profissão de fé, o guia ou chefe de Estado é promovido à sua dignidade de semideus, para lá do bem e do mal, e o seu adepto toma a figura de herói, de mártir, de apóstolo, de missionário. Desde então, existe apenas uma verdade, fora da qual não há salvação. Ela é infalível e para lá de toda a crítica. (…)
Quando o indivíduo é apanhado pela massa e se torna por esse facto uma unidade social anónima, um número, quando o Estado se torna supremo, uma das consequências lógicas e inevitáveis é que a função religiosa do homem se encontra envolvida por este turbilhão. A religião é uma observação meticulosa e uma tomada em consideração de certos factores invisíveis e incontroláveis; ela constitui uma atitude instintiva própria do homem, cujas manifestações se podem encontrar através de toda a história da humanidade e do espírito. Com toda a evidência, uma das suas funções é manter o equilíbrio psíquico, pois o homem natural sabe muito naturalmente que as suas funções conscientes podem ser em todo o momento modificadas, afectadas, contrariadas, tanto do interior como do exterior, por factores incontroláveis. É por isso que ele sempre cuidou que toda a decisão de alguma importância seja garantida e protegida por providências apropriadas de natureza religiosa.
(…)
Os espíritos racionalistas dirigem principalmente os seus ataques contra o que a tradição apresenta como o efeito miraculoso do rito. Na realidade, eles passam completamente ao lado do essencial. A coisa principal, isto é, o efeito psicológico, escapou-lhes, malgrado o facto de que os dois partidos (Igreja e Estado) procuram precisamente utilizar este efeito, mas, é verdade, com finalidades diferentes. (…) a finalidade religiosa, libertação do mal, reconciliação com Deus e recompensa no Além, transforma-se, no plano do Estado, em promessas de baixo: libertação das preocupações do pão quotidiano, repartição equitativa dos bens materiais, bem-estar geral num futuro não muito longínquo, redução das horas de trabalho. Que a consecução destas últimas promessas fique quase tão nebulosa como o paraíso, não constitui senão uma analogia suplementar e confirma a conversão das massas a um credo exclusivamente terrestre, credo que é gabado aos homens com o mesmo fervor religioso e o mesmo exclusivismo daqueles que apresentam as confissões com uma intenção radicalmente oposta.
(…)
… O Estado ditatorial não só destruiu os fundamentos do direito do cidadão, como também o privou das suas bases espirituais, despojando-o da justificação metafísica da sua existência. O que importa não é já a decisão ética do homem, mas o movimento cego da massa manipulada, e a mentira foi elevada à dignidade de princípio fundamental da acção política. O Estado daí tirou as últimas consequência, como o demonstra até à evidência a existência de numerosos milhões de escravos do Estado, privados de qualquer direito.
Dos dois lados, seja do lado do Estado ditatorial ou da religiosidade confessional, sublinha-se à porfia a ideia da comunidade. Esta constitui o ideal particular do “comunismo” e ela é imposta ao povo de modo de tal maneira maciço que se produz o efeito contrário ao desejado, isto é, a desconfiança e a segregação. Por outro lado, a Igreja surge, com não menor insistência, como ideal de comunidade, e aí onde a Igreja é notoriamente fraca, como no protestantismo, a falta de coesão dolorosamente ressentida é compensada pela esperança ou pela crença numa experiência ideal de vida comunitária. Como se vê, a “comunidade” é um auxiliar indispensável para a organização das massas, e é por conseguinte uma arma de dois gumes. Como uma soma de zeros nunca deu a unidade, o valor duma comunidade corresponde à média intelectual e moral dos indivíduos que ela compreende em seu seio. É por isso que não se pode esperar duma comunidade qualquer efeito que vá além do efeito de sugestão do meio; não se pode esperar dela qualquer modificação real e fundamental do indivíduo, nem para o melhor nem para o pior. Não se pode esperar tais efeitos que modifiquem o indivíduo senão por intermédio dum encontro, dum confronto, duma explicação pessoal de homem para homem, de singular para singular, e não por um baptismo colectivo, comunista ou cristão, que não atinge nem toca o homem interior. Os acontecimentos contemporâneos mostram quanto no fundo é superficial o efeito da propaganda comunitária. O ideal de comunidade passa por cima da cabeça do interessado principal, o homem individual, que ele pretende satisfazer sem ter em conta as suas aspirações, que no fim ressurgirão com muito maior energia.
Tradução: Joaquim Reis
Nota: C. G. Jung foi um dos maiores pensadores do século XX. Os extractos acima foram escritos em 1957, 4 anos antes da sua morte, isto é, há 51 anos. O título original desta tradução francesa era: “GEGENWART UND ZUKUNFT”, 1ª edição, Zürich 1957, (3ª edição em 1958). A edição francesa do Dr. Roland Cahen, o tradutor francês, é de 1962, Paris.
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O Indivíduo ameaçado pela sociedade
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