Joerg Haider não desiste. Oito anos após ter provocado, com a sua chegada ao poder, um movimento de protesto e repúdio contra o seu país por parte da União Europeia, o político de extrema-direita já anunciou que irá apresentar-se às legislativas antecipadas de 28 de Setembro como cabeça de lista do seu novo partido - Aliança para o Futuro da Áustria (BZO). E, tendo em conta a crise que assola o país - e a Europa - e as posições políticas defendidas pelo homem que, em adolescente, queria ser actor, é bem possível que a BZO alcance um bom resultado eleitoral.
“Obrigação patriótica” foi a justificação dada pelo governador do estado austríaco da Caríntia para se candidatar ao escrutínio, uma expressão que, por si só, poderá indiciar o tipo de campanha em que irá apostar o partido de extrema-direita e o seu líder - a defesa de políticas nacionalistas. Não muito diferente, aliás, do que fez em 2000 quando conseguiu que o Partido da Liberdade (FPO), que então liderava, entrasse no Parlamento nacional e mesmo no Executivo de Viena, em coligação.
A luta contra a imigração ilegal - como acontece com populistas de outros países europeus - e contra a entrada de refugiados deverão estar no topo das prioridades de Joerg Haidar. Aliás, como revelou o jornal espanhol El País, em Julho último, um grupo de refugiados foi expulso da Caríntia para outro estado, uma medida que colocou Haider em rota de colisão com a ministra do Interior austríaca, Maria Fekter, e que levou vários políticos a acusarem-no de ter cometido um crime.
A corrupção e os “jobs for the boys” deverão ser outros temas da campanha do político austríaco que afirma admirar o republicano americano Newt Gingrich. Até porque se considera, desde 1986, imune a qualquer tentativa de corrupção. A data não é aliatória: foi nesse ano que um seu tio-avô, que Haider nem conhecia, lhe deixou em herança uma propriedade que o transformou num homem suficientemente abastado para adiquirir os carros de alta cilindrada que tanto gosta de conduzir. Mas a posse da “Vale do Urso” tem também servido os críticos de Haider, que fazem questão de lembrar que a propriedade em causa foi adquirida pelo familiar do político a uma família judia que teve de fugir da Áustria durante o regime nazi.
O líder da BZO, força política que criou em Abril de 2005 com a sua irmã Ursula, garantiu já que não tenciona deixar o seu cargo no estado da Caríntia para assumir um lugar no Executivo em Viena, seja qual for o resultado que o partido alcance nas legislativas de Setembro. Esta intenção poderá, porém, ser abandonada: tudo irá depender da correlação de forças saída do escrutínio, embora responsáveis do seu antigo partido - FPO - já tenham recusado a coligação com a BZO.
A reacção externa aos resultados deverá também pesar na decisão do líder nacionalista e, como tal, altamente crítico da realidade da União Europeia, que o recusou em 2000 como consequência das suas políticas xenófobas e pró-nazis, algumas das quais Haider suavizou nos últimos tempos. Por exemplo, as suas diatribes contra os judeus deixaram de ser ouvidas, assim como a defesa de políticas que faziam lembrar as do III Reich. Esperemos agora pelo calor da campanha.
In Diário de Notícias, 23 de Agosto de 2008
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