Passaram-se cerca de 16 anos desde os tempos em que as guerra separatistas na Geórgia tinham gerado um enorme número de vítimas e de desalojados. Não obstante o tempo, as situações não se conseguiram normalizar. Da Abkházia tinham sido expulsos praticamente todos os georgianos que lá viviam, depois de uma vitória militar dos abkhazes, com um certo apoio russo e com a ajuda de aventureiros e guerrilheiros, inclusivamente alguns comandantes da guerrilha Chechena que se vieram a tornar famosos mais tarde (ex. Chamil Bassaev). O facto é que a Geórgia não conseguiu resolver o problema dos desalojados (os números oficiais rondam os 200 mil) e muitos continuam ainda em alojamentos precários, escolas, edifícios públicos e hotéis que, com o tempo se deterioraram, tornando cada vez pior a vida dos desalojados da Abkházia. Na Ossétia do Sul, o quadro era um bocado diferente. Houve um grande número de desalojados devido à guerra (91/92), mas sobretudo ossetas, que foram para a Ossétia do Norte (Federação da Rússia). Muitos destes não voltaram porque as condições e as perspectivas de vida na Ossétia do Norte eram melhores. De qualquer forma, muitos têm parentes dum lado e do outro das montanhas do Cáucaso. Numa das viagens que fiz a Tbilissi, em 2002, tive a ocasião de entrevistar um deputado que era vice-chefe da comissão parlamentar para a defesa, Zviad Mukbaniani. Referindo-se à Ossétia do Sul, Mukbaniani comentava que “ali é muito diferente da Abkházia. Nós podemos ir lá livremente. Os ânimos não estão exaltados como na Abkházia, ao ponto de odiarem a Geórgia e os georgianos.” Era uma das situações em que o separatismo político não impedia uma vida mais ou menos normal a ossetas e georgianos. Mas, nos últimos anos as coisas mudaram. Mikhail Saakachvili tinha prometido recuperar a integridade territorial da Geórgia. Por outro lado as relações com Moscovo deterioraram-se muito depressa. A lista dos motivos de “atrito” seria demasiado longa para este espaço, mas pode-se resumir de forma um bocado simplista que a Geórgia passou de uma “zona de influência russa” a uma zona de “influência norte-americana”. Os motivos de atrito nas regiões separatistas também foram aumentando, chegando várias vezes a trocas de tiros de dimensões reduzidas. Nos últimos anos houve uma aposta forte do governo de Tbilissi em melhorar a capacidade das forças armadas, o que foi apoiado pelos EUA e pela NATO. Na minha opinião, as autoridades georgianas foram adquirindo a convicção de que poderiam recuperar os territórios separatistas pela força (algumas vezes afrimaram-no). No fundo, era o que a Rússia tinha feito com a Chechénia. Foram colocadas tropas georgianas nas proximidades da fronteira administrativa da Abkházia e da Ossétia do Sul. De vez em quando, ambas as partes acusavam a outra de “provocações”. Tblissi nomeou “governos no exílio” para ambas as regiões separatistas. Numa entrevista recente, o embaixador norte-americano em Moscovo afirmou que Washington tinha insistido para que Saakachvili não se deixasse levar pela tentação de intervir pela força. Admitindo a sinceridade das palavras do diplomata, parece-me no entanto que, com os factos, ou seja com o armamento, instrutores militares, etc., os EUA foram convencendo Saakachvili de que poderia conseguir. Depois do que aconteceu, já ouvimos vozes de pessoas autorizadas da NATO e dos EUA a garantir que vão ajudar a Geórgia a refazer a sua capacidade militar. Será para tentar outra vez resolver os separatismos pela força?
Certamente que a entrada militar russa na Geórgia foi desproporcionada. Vencido o poder militar georgiano deram-se às exibições de “músculos” para fazer ver que faziam o que queriam. Já dos exemplos da Chechénia sabemos que o exército russo não é muito disciplinado nem muito preciso, com os custos inerentes para a população civil. No entanto, o apoio quase total ao governo de Tbilissi, por parte dos países Ocidentais, pode aumentar a tensão na região. A Rússia poderá (algumas afirmações de pessoas autorizadas leva a crer que seja assim) reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, mais não seja, invocando a posição de muitos outros países no caso do Kosovo. Aí as coisas ficam politicamente complicadas.
Saakachvili acusou alguns países europeus de terem culpas no que aconteceu, por não terem admitido a Geórgia na NATO, já em Maio. É claro que quando as coisas correm mal têm que se dar as culpas sempre a alguém, mas o que é que o presidente georgiano quer dizer com isso? Se a Geórgia fosse membro da NATO, não me parece que ele se sentiria menos “seguro de si” para atacar Tskhinvali. E depois? A Rússia iria ficar quieta para não se meter com a NATO. E se não ficasse? A NATO iria ficar quieta para não se meter com a Rússia. E se não ficasse? É melhor não continuar porque depois não ficava cá ninguém para contar como tinham sido as coisas. O que eu quero dizer é que me parece que há uma grande irresponsabilidade na maneira como a NATO tem dado apoio à Geórgia, com os problemas que tem por resolver e com o regime que tem. Corre-se o risco de, em vez de a NATO dar garantias de poder manter a paz, com o seu apoio, acaba por dar motivações para que um seu membro (presente ou futuro) se sinta forte para ir provocar uma guerra.
O Cáucaso tem uma série de situações complexas. O trabalho importante a fazer seria convencer as várias partes em litígio que devem sentar-se à mesa e começar a dialogar. Demorarão o tempo que for preciso. Tomar partidos em conflitos étnicos deixa pouca margem para se ter razão.
O Cáucaso tem ainda uma agravante em relação aos Balcãs, que tantos problemas já deram. É corredor de passagem para o petróleo e (no futuro próximo) o gás do Cáspio, e talvez (também no futuro) da Ásia Central. Este factor cria urgências e interesses que, frequentemente, não ajudam a encontrar soluções razoáveis.
In Ares da Sibéria, 24 de Agosto de 2008
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